Somos feitos de estratos. Milhares deles.
O primeiro nem sequer é nosso, porque pertence ao Outro que nos olha. Somos, também, o estrato fino e superficial de quem nos olha pela primeira vez e somos compostos pelas centenas de componentes que cada um desses olhares transporta.
Depois, e muito devagarinho, começamos nós, transformados naquilo que o Outro espera de nós até chegarmos, depois de sucessivas e penosas descidas, às catacumbas onde, mesmo nós, temos medo de entrar.
Como alguns, felizmente poucos, tenho, depois das catacumbas, as tenebrosas sombras que me atormentariam se me permitisse deixar que se desenterrassem.
Sou um Asperger. Dizem que ligeiro, ténue, quase sem réstia da maleita, mas com sintomatologia bastante evidente.
Às vezes lamento não saber lidar com os outros. Não reconheço o primeiro estrato, o meu e o do Outro. Fico-me pela defesa intransigente do que penso acreditar ser o correcto em mim. Deixo pelo caminho, sem sequer saber se me pertenceu ou sequer se existe, a visão do Outro em mim.
Não reconheço a única forma de criar harmonia entre mim e os que me rodeiam: a empatia. Não sou capaz de ocupar o lugar do outro e sentir que sinto o que ele sente.
Isto, na pior das hipóteses, transforma-me num potencial assassino. Na melhor, deixa-me bastante só.
Temos pena.
Tenho uma página no facebook. Não interessa qual, porque se tornou inacessível.
Eu explico.
Mal um tipo tecla o endereço aparece-lhe uma mensagem do catano que o informa:
Access Denied.
Access control configuration prevents your request from being allowed at this time. Please contact your service provider if you feel this is incorrect.
Quer isto dizer que o Poder impediu sumariamente o acesso dos seus funcionários, ranhosos como eu, que passavam escandalosamente o dia inteiro enfiados no facebook, a bitaitar disparates com os amigalhaços.
Desta forma, só tenho possibilidade de vasculhar o que por lá anda, no aconchego do meu lar, já que todo o equipamento que uso aqui está ligado em rede e não trago o portactél com uma pen foleira que me permite apenas navegar se assobiar com força.
Significa isto que vou passar mais vezes por estas bandas.
Sou, como se prova, um trabalhador compulsivo.
Por um lado, este facto é positivo. A minha página, agora inacessível durante as horinhas de labor, era uma espécie de antecâmara da morte. Ficava logo à entrada da merda sinistra que tento encerrar com paredes de betão armado e que não deixa nunca de me fazer a lembrar a Caixa de Pandora.
Como é lógico, nocturno como sou, vou acabar por dispensar muitíssimo menos tempo a alimentar tenebrosidades facebookianas, porque é invariavelmente a partir do fim das tardes, quando deixo este cantinho e me fico por casa, que começo a pensar com tino e me dedico seriamente àquilo que me interessa. Logo, o facebook vai com ficar solteiro.
Pertencia (creio que ainda pertenço) a um grupo, dentro dessa rede.
Era saudável e idiota como geralmente são as coisas divertidas e as cartas de amor.
No entanto, tem vindo a transformar-se numa continuação de conversas de chat e, em consequência, num sub-grupo de gente (folgazona, não nego) que se conhece pessoalmente e, como seria de esperar, continuam a pândega que começaram lá fora. Acontece que quem os não conhece, acaba deslocado e perde o interesse e a motivação para colaborar e participar.
Está explicado.
O blog vai activar-se como manda a sapatilha e vou acabar por ficar longe daquilo que, no facebook, acabava por ser a revelação do que de mais sinistro, escondido e hermético há em mim.
Aqui alarveja-se.
Não faço ideia se já publiquei isto, mas como sou adepto da reciclagem volto a utilizar a opinião que mantenho.
Devo dizer que após pesquisa, com rigoroso carácter científico, como não podia deixar de ser, conclui que os blogs dedicados a gajos nus e todos bons, proliferam como moscas na merda.
Aquilo é só clicar que nos parecem catrefadas deles com fotos de tipos para todos os gostos e feitios! Também os há com meninas (não sei como, mas neste contexto a palavra meninas soa a putedo) que nos fazem desejar ser todos lésbicas, mas confesso que sou muito mais exigente em relação aos dos tipos.
A verdade é que se começa a ter uma certa dificuldade em eleger as melhores fotos. Isto porque os meninos e as meninas aparecem em poses que deixam muito a desejar. Ou arranjam cara de se me apanhares, fodes-me na boa, que eu deixo! ou posições de puta que pariu, que eu sou bom como milho – ou boa, dependendo do cereal - e tu não vales um cu ao meu lado! ou ainda, e estes são mais vulgares, ai que acordei e tenho o cu de fora!.
Depois há os títulos que são do melhor: Vermelhas em carne-viva; Marinheiros escaldantes; Duas peças e um sonho; Os bravos do poletão; Mulheres do deserto ou ainda Para acordar no paraíso…
Confesso que ainda procurei uma imagem que me agradasse para a espetar aqui e dar um ar gaiato a esta merda, mas depressa desisti. Ninguém tem cu para aquilo! Aquela gente não anda na rua. Nunca me passou pela frente um tipo daqueles e nunca encontrei no metro uma tipa com a barriga para dentro, mamas e cu para fora agarrada ao varão, embora no metro já tenho visto de tudo.
É desolador.
O mais próximo que estive dum modelo daqueles foi na semana de moda em Paris, quando um matulão, com um ar de italiano que quase me fez tinir os tintins, se abeirou de mim todo sorridente para me perguntar se sabia onde se podiam comprar maçãs. Eu saber, até sabia, mas aquilo era fruta a mais para os meus dentes, engasguei-me todo e encolhi os ombros como quem não faz ideia do que o tipo queria. Morcão que eu fui! Se não me tivesse apanhado de surpresa, dizia-lhe onde estava a fruta, o merdas.
Bem. Voltando ao assunto, que tristezas não me pagam o gás. Da minha investigação resulta um facto: estes gajos e estas gajas estão ali, de cu ao léu e cara de carneiro que vai ser imolado e já está bêbado para não sentir, só para nos humilhar. Não pode ser outra coisa. Então aqueles frascos existem e nós temos apenas as amostras, ainda por cima sem aquelas tampinhas?! Então aquela gente anda por aí e nós só temos direito a umas cuecas de algodão sem graça nenhuma e que nem sequer nos fazem uma pila bonita?!
Mas acima de tudo: então eles e elas estão ali, lindinhos e sãos, e nós somos uns merdas olheirentos com as pernas tortas e pêlo encravado, sem hipótese nenhuma de ficar sensuais de cacete ao ombro ou peluche nas mamas?!
Que se fodam todos. eu cá não faço posts com merdas humilhantes cá para o populacho. Nestas coisas, como nas outras, sou um tipo de esquerda: ou mama tudo ou ficamos por aqui.
Entretanto, chega ao palácio da Zarzuela a encomenda do Botswana, para que Sua Majestade possa andar aos tiros nos seus aposentos sem partir o cu.
Então não é que ando capaz de dormir o dia todo?!
Isto não é normal! Ou ando a chocar uma maleita qualquer ou devo estar próximo de me tornar um tipo mal amanhado, capaz de adormecer no trabalho, babando o teclado.
Também é suspeito não me apetecer andar de cu alçado no tró-ló-ró. Não tenho tido pachorra para nada. Nem mudar de camisa consigo e quando me pedem para sair, dar uma voltita, ir ali e acolá, descubro-me a procurar desculpas para não o fazer.
Ontem menti com os dentes todos (lavei-os primeiro) quando me convidaram para jantar. Disse que já tinha compromissos agendados. Muito fino. Muito NY. É claro que me vou lixar. Quem me fez o convite, não vai voltar a experimentar e, para mal dos meus pecados, até comia qualquer coisita.
Deve ser anemia.
Depois, estou com uma otite.
Quando era miúdo sofria de asma. O tempo acabou por debelar a anomalia e hoje respiro sem qualquer tipo de problema.
Há, no entanto, uma treta que me foi diagnosticada muito cedo e que não sara. É ténue e muito pouco profunda, mas tem causado algum desconforto e impedido que a minha vida se vá desenrolando normalmente. Dificulta-me os relacionamentos e está na base da minha completa incapacidade de descodificar emoções e do meu isolamento social.
Quando começaram a desconfiar da minha hiperactividade, pouco comum, porque abrandava logo que apanhava qualquer coisa que fosse passível de ser lida, a minha mãe (psiquiatra e em consequência atenta a todos os distúrbios familiares) decidiu submeter-me a inúmeros testes, orientados por especialistas em quem confiava, que resultaram num diagnóstico pouco agradável. Síndrome de Asperger.
Não é profundo, nem me provoca alheamento. Não é sequer impeditivo e incapacitante, mas boicota-me a possibilidade de entender, descodificar, conhecer, reconhecer emoções e sentimentos. Atrasa-me a sociabilização e deixa-me, de certa forma, isolado, pronto a recusar qualquer tipo de relacionamento. Socialmente não é detectado o problema, mas complica muitíssimo a minha vida emocional que, de certo modo, controlo com pulso de ferro e uma censura tenaz.
Evidentemente que tenho, como todos os Asperger, uma obsessão. Não consigo deixar de ler. Leio tudo e nem sequer ignoro as bulas dos medicamentos. Leio compulsivamente, obsessivamente.
Não prejudica, como é evidente. No entanto, a minha leitura obsessiva cola-me à cabeça pedaços do que leio. Decoro sem qualquer utilidade, e sem qualquer propósito, vontade ou justificação, página inteiras de obras tão díspares como uma de Tolstoi e o repertório dos pequenos cantores de Viena. Sei de cor milhares de páginas, mas nunca a obra completa (recuso-me tenazmente a tentar).
Quando quero, visualizo a página da obra que li, ontem ou há anos, e consigo lê-la em 90% dos casos de forma exacta. Falho nos 10% restantes, porque acabo por corrigir a tradução e trocar os vocábulos por aqueles que considero mais adequados.
Nunca falei nisto. É um problemazinho caseiro.
Creio que ninguém percebe o barulho que trago na cabeça. Há momentos em que desespero, mas que acabo por reprimir. Já me causou mais angústia do que hoje.
Há, no entanto, uma lacuna que me vai corroendo. Leio o escrito, mas nunca consegui ler o sentido e, para mal dos meus pecados, saber de cor dezenas de páginas de um romance qualquer, não me ajuda a saber de coração o que está escrito nos olhos de alguém.
Não sou grande fã do carnaval.
Em miúdo era uma tortura quando diziam que tinha de me mascarar para o desfile do colégio. Achava tudo embaraçoso e ficava sempre de trombas monumentais nas fotografias. A única vez que achei piada aquilo foi quando a minha professora foi atropelada vestida de fada ao sair do portão do colégio toda atenta aos putos e a olhar para trás. Não sofreu grande coisa, só algumas escoriações, mas deu para anular a cagada da fila indiana que começava com os elefantes de feltro e terminava com as chávenas de chá da “Alice” feitas em placas de espuma.
Agora é menos embaraçoso. Não é o Natal que é quando um gajo quiser. É o carnaval e, pelo que se vê, um gajo quer muitas vezes. É vê-los aladinos e cinderelas parolos e pategas, a desandar por aqui. Há uma sereia, um inevitável palhaço, um elefante, o capuchinho vermelho e a bruxa má. Há a Manuela Eanes e a Minnie e uma data de cromos a fechar uma interminável fila.
Se me quiserem encontrar, é só procurar o gajo infeliz escondido no bar, debaixo do balcão, disfarçado de russo e enfrascado em vodka, ok?
No português existem os particípios activos como derivativos verbais.
Por exemplo: o particípio activo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendicar é mendicante...
Qual é o particípio activo do verbo ser? O particípio activo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade.
Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a acção que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte.
Portanto, a pessoa que preside é PRESIDENTE, e não presidenta, independentemente do sexo que tenha. Diz-se capela ardente, e não capela ardenta; diz-se estudante, e não estudanta; diz-se adolescente, e não adolescenta; diz-se paciente, e não pacienta.
Então não me tornem a esfacelar os nervos, sim?
Ai, o caralho.
Somos ridículos. Todos os dias somos espapaçadamente ridículos.
Se tivéssemos a paciência de, quando pousamos a cabecinha na almofada, passar um esfregão por todas as atitudes que tomamos e por todos os nossos mais pequeninos comportamentos, desatávamos às gargalhadas durante uma boa parte da noite.
Somos ridículos quando nos despedimos de alguém ao telemóvel e repetimos sem controlo o então, obrigado, obrigado, obrigado, então, bom dia, então, bom dia, bom dia, então, até já, até já, até já.
Somos ridículos ao fazer peito quando alguém nos atribui uma importância que não temos e, todos inchados, mantemos o equívoco, porque é agradável a pitada de poder que nos metem na boca.
Somos ridículos quando fazemos uma cara de defunto perante um facto que nem sequer nos despertou o mínimo interesse ou nos mereceu mais do que dois ou três segundos de atenção.
Somos ridículos ao tentar ultrapassar a velha na paragem do autocarro só porque, de repente, a velha nos irritou com a cambada de sacos de plástico furados e o cheiro a mijo.
Somos ridículos quando somos simpáticos com a pessoa que está do outro lado do telefone, mas que não nos merece uma réstia de consideração e que nos obriga a rabiscar no bloco de notas que temos ao lado círculos e quadradinhos e risquinhos que depois preenchemos com paciência.
Somos ridículos quando miramos a fatiota do cangalheiro enquanto o padre reza pelo corpo presente e pensamos pela calada que a viúva não está com cara de quem sofre ou que o patife do morto já devia ter marchado há muito tempo, enquanto apoiamos com o braço solícito o pesar do filho matulão, atraente e suspeitamos que prometedor.
Somos ridículos quando não conseguimos coçar o rabinho na reunião de Direcção e disfarçamos a comichão esfregando o dito como podemos na cadeira sem poder.
Somos ridículos quando nos escandalizamos sonoramente com o assassínio dum cronista, mas suspeitamos, bem no fundo do lamaçal que somos, que o tipo que desprezávamos merecia umas catanadas há já algum tempo.
Somos ridículos quando, perante o mesmo crime, fazemos um estalido com a língua, encolhemos as sobrancelhas, fechamos os olhos constrangidos e declaramos que os media, desgraçados, exploram o caso até às cinzas, mas espreitamos pelo canto do olho o capado do assassino e esperamos que o tipo enlouqueça de vez ou que a idiota da irmã faça poses para revistas cor-de-rosa, atestando por sua honra a heterossexualidade do moço.
Somos ridículos, tantas e tantas e mais tantas vezes, que até dói de tanto rir.
O problema é que somos também ridiculamente sérios para desatarmos às gargalhadas no meio das nossas noites sem sentido.
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Acredito que a camaradagem, ou a amizade, é uma linha invisível que nos sacode os ombros e que nos autoriza a higiene espiritual na adversidade absurda. É como aquela gravata indispensável aos domingos quando se fundam as náuseas da existência. O simples facto de vestirmos a gravata, naqueles gestos de rei ao espelho, oferece-nos um sentido, uma esperança a olear a máquina lógica da linguagem, impedindo-nos de enlouquecer. É a metáfora mais adequada ao que de mais próximo sinto em relação ao assunto. É evidente que com uma gravata nos podemos matar, mas, nesse caso, possivelmente falamos de amor. |
Estabeleci que o meu envelhecimento seria de cinco em cinco anos, ou seja, fiz 20, 25, 30 e farei 35 se lá chegar. As idades intermédias não contam. São períodos de aprendizagem que apenas se solidifica se entre eles deixarmos intervalos de tempo razoáveis.
Posto isto, fica claro que não tenho a idade certa para me tornar um eremita (coisa em que me transformarei com 85), mas também já não consigo andar por aí de cu ao léu, a abanar as pevides por entre a multidão.
Estou naquilo a que se poderá chamar limbo, que, segundo a Igreja Católica Apostólica Romana, é um lugar fora dos limites do Céu, onde se vive a plena felicidade natural, mas privado da visão beatífica de Deus. O Céu estará, de acordo com esta linha de pensamento e com a Judy Garland, algures no início e no fim do arco-íris. O entremeado é o limbo e não dá direito a ida ao cinema nem à visão de faces beatíficas.
Isto de envelhecer aos soluços tem que se lhe diga. O tempo custa a passar sobe-nos ao gorgomilo a sensação do vácuo existencial sempre que nos perguntam a idade. No entanto, aprendemos, nos intervalos da chuva, a perceber que o que é fodido não é passar a vida a soluçar, é arranjarmos uma embalagem de lenços de papel em condições, para limpar o ranho e as lágrimas (de choro ou de riso) que nos encharcam o chão que vamos pisando.
A nossa vidinha nunca é tão boa, nem tão má, como pensamos. Vivemos nos intervalos.
O casal Merkozy reunido, mais uma vez, para discutir o Pacto Orçamental e a solução para a crise europeia.
(Nota da redacção - Sarkozy apresenta-se em excelente forma física)